domingo, 20 de outubro de 2013

Os sonhos de Briar Rose

Havia, muito tempo atrás, uma família que passava através das gerações a crença de que era uma maldição nascer no décimo terceiro mês dos anos que tinham treze meses. Mas os pais da pequena Briar Rose não conseguiram evitar que ela viesse ao mundo em um mês como aquele. 

Com muito medo de que algo nefasto acontecesse à sua filha, era comum que eles a levassem com frequência para consultas com astrólogos, quiromantes e cartomantes. Sem conseguir respostas claras sobre que ameaças pairavam sobre o destino da criança, procederam com extrema cautela nos cuidados com a criação da menina.

Uma criança belíssima, alegre, que sorria e brincava com todos que a viam nas manhãs das cerimônias religiosas da cidade. Eram tempos de prosperidade na região, fruto do estabelecimento de uma nova rota comercial – conquistada com muito sangue em terras bárbaras. Enquanto novas residências, lojas, estalagens, oficinas e praças somavam-se à urbe, Briar Rose levava uma infância feliz.

Raras vezes saía da casa, que era um palacete de estilo antiquado construído no centro do orgulho da família: um enorme jardim, que parecia ser verdejante mesmo nos invernos mais rigorosos, como se a Natureza poupasse àquele rincão da cidade a sorte garantida para toda a vizinhança. Seu tempo era dividido entre as lições da tutora (que foi contratada para administrar uma rigorosa educação em domicílio), as refeições de cada período e as brincadeiras vespertinas. Era comum a companhia da filha de uma das criadas ou de algumas poucas vizinhas permitidas pelos seus pais.

A leveza dos dias quase a fez esquecer. Mas nas noites de lua nova, quando a escuridão tentava afogar as plantas da propriedade e as lamparinas dos aposentos faziam esforço redobrado, uma troca de olhares apreensivos entre a mãe e o pai era suficiente para que a menina, que era cada vez mais uma moça, sentisse intensa fragilidade à mercê do próprio futuro.

Certa vez foi despertada pelo canto dos sabiás e, ao se levantar, viu que os raios de sol revelavam diversas pétalas de rosa sobre seu leito. Um olhar mais cuidadoso, auxiliado pelo tato, corrigiu a impressão inicial. Era sangue, e tinha mais nas roupas de Briar Rose, que, assustada, correu para o quarto dos pais em busca de ajuda. 

Nas semanas seguintes não houve sossego: novas visitas às autoridades das artes divinatórias na região foram realizadas. Os pais de dela temiam que a maldição viesse bater à porta daquela nova fase da vida em que a menina havia entrado. Não, não era mais uma menina. Agora era uma mulher e o tempo das brincadeiras teria que ceder ao tempo de garantir a continuidade da família. Filha única, dela dependeria a manutenção da linhagem ilustre à qual os três pertenciam.

Sob absoluto sigilo, viajaram além das montanhas. Desceram caminho tortuoso para o bojo de um vale pouco habitado, onde vivia uma senhora que tinha fama de bruxa. Rose saciou sua curiosidade em relação ao mundo como nunca antes. Espiando entre as cortinas da carruagem, tentava absorver o máximo possível da miríade de cenas que previamente pertenciam somente à esfera da imaginação, que era fertilizada pela literatura e pelos relatos das amigas.

Após acomodarem-se como possível no casebre da bruxa, ela cobriu a cabeça da jovem Briar Rose com um véu negro. Então colocou um punhado de sementes variadas na mão esquerda e uma vela roxa e acesa na mão direita da menina, que sentava em um banco de ébano. Em silêncio, a velha observou a moça. Até que falou:

– A criança não contém maldição. Mas, se não tomarem cuidado, ela pode ser exposta às tantas que rondam pelo mundo. Ela tem, sem dúvida, uma espécie de fraqueza. 

Depois de queimar as sementes num fogareiro, de guardar a vela e o véu, a bruxa fitou o casal por alguns instantes. Baixou os olhos e aconselhou-os de modo críptico:

– Nunca permitam que uma agulha traiçoeira se aloje na menina através da pele e dos tratos superficiais. Se isso acontecer, será a ruína da família. E a sua filha dormirá, porém sem descanso, até ser beijada por um príncipe. Agora vão. É só o que eu tenho a dizer.

Quando caía a noite, chegaram em casa. Logo mandaram as criadas jogarem fora todas as agulhas e objetos semelhantes. No dia seguinte, a casa e os jardins foram vasculhados. Foi decretada a proibição, sob pena de demissão, da entrada de qualquer um daquelas ferramentas banidas. Briar Rose estava proibida de sair dos limites da casa.

O confinamento não representou uma mudança na rotina dela, que fora criada sempre ao alcance imediato do pai e da mãe. Seus momentos de maior liberdade, até então, tinham sido as brincadeiras no jardim em que ela e as outras meninas fingiam serem animais na floresta. Mas agora as visitas tornavam-se cada vez mais escassas, além de restritas ao salão da residência. Era visível o desinteresse das amigas, que também já estavam se tornando mulheres e igualmente imigravam para o tempo das tarefas do lar.

Alguns anos passaram, nos quais ela dedicou-se a aprender a cuidar das plantas. Essa era a única atividade do lar permitida pela mãe, que dizia ser desnecessário realizar qualquer uma das outras, pois seriam sempre exclusivas às serviçais. Desfrutava, então, da maior parte dos dias exercendo a jardinagem ou sentada nos bancos, entretida com algum romance de cavalaria – eles estavam na moda naquele tempo. A exuberância do jardim nunca fora tão grande. Nas primaveras, inúmeros pedidos de visitação eram enviados. Mas bem poucas eram permitidas. 

Corada pela luz do Sol, bem alimentada e com a alma preenchida pelos conteúdos da farta biblioteca da qual dispunha, Briar Rose era uma linda jovem de cabelos castanhos que sorria ao encontrar abelhas trabalhando sobre as flores que ela cultivava. Seus olhos transmitiam a serenidade de quem vive sem ansiedade em relação ao dia seguinte e sem remorso do que acontecera nos anteriores. Na falta de tesouras, podava com delicadeza os galhinhos que não vingavam, usando as mãos com paciência. 

Os pais estavam bastante decididos a encontrar um marido para sua filha. Ele traria mais riqueza para a família e assumiria a tarefa de manter Briar Rose à salvo da maldição. Tanta beleza, somada a um dote considerável, seria mais do que suficiente para atrair um excelente candidato. Nobre, de casa próspera e, quem sabe, com vínculos poderosos. Durante meses o pai e a mãe estudaram, planejaram e combinaram, por correspondência, uma recepção com o objetivo de apresentar Briar Rose à família mais rica possível dentre as que tivessem rapazes ou homens disponíveis para o matrimônio. Guardaram tudo isso em segredo, sem qualquer menção do assunto à donzela, para não importuná-la e para que ela não pudesse atrapalhar os preparativos.

Num belo dia de Outono uma carruagem muito ornamentada adentrou os portões do palacete. Dela apeou os únicos integrantes remanescentes do clã mais rico da península, de estirpe antiga e prestigiada: uma viúva e seu filho único, homem feito que acabara de retornar dos conflitos com os bárbaros. Juntos, possuíam domínio sobre dezenas de moinhos e contavam com a fidelidade – por endividamento – de quase uma dúzia de vassalos. Alguns diziam que era riqueza proveniente da velha ordem, mas que tendia a durar caso fosse bem administrada.

Durante as apresentações formais no salão, a curiosidade de Briar Rose só não era maior do que o seu constrangimento. Ainda muito surpresa com a chegada de uma visita, e ainda mais com o propósito que ela tinha, sentia-se paralisada como as joaninhas nas teias das aranhas do jardim. Com base nos poucos olhares que ousou lançar, achou que seu pretendente era razoavelmente bonito. Tinha um ar de cavaleiro, porque afinal voltara da guerra, mas era bem diverso da idéia que ela fazia de um deles. Os romances não os retratavam com um olhar agitado e uma barba com falhas. Quando seus olhares se cruzaram, ela teve a impressão de estar sendo cobiçada. O que foi, pra ela, um pouco assustador. Não saberia como reagir.

Após o chá, sua mãe pediu que ela fosse mostrar o jardim ao cavalheiro, com essas palavras. Assim, as cabeças das famílias poderiam discutir questões aborrecedoras como o dote, a cerimônia, enfim, os arranjos pré-nupciais e a fina costura dos negócios.

Caminhando pelo passeio em direção ao pomar, Briar Rose se esforçava para transmitir naturalidade ao homem que a seguia. Discorria sobre as mudanças nas folhagens, os pássaros que voltariam na Primavera, o riacho que corria perto da cerca dos fundos. Nomeou todas as flores, apontou quais ervas serviam para fazer tempero ou chá. Ele não parecia impressionado e não fazia comentários. Seu silêncio foi interpretado como originário de uma franca ignorância acerca da botânica, mas o que esperar de alguém tão diferente dela? Com o tempo ele poderia se interessar. Ela continuava exibindo seu conhecimento enquanto criava coragem para perguntar sobre paisagens e costumes estrangeiros com o qual ele certamente deveria ter tido contato.

Sob a copa da maior e mais antiga macieira, Briar Rose deteve-se e, com muito jeito, retirou uma bela maçã. Ofereceu a fruta com a mão esquerda e um sorriso, com o intuito de criar um primeiro laço com aquele senhor taciturno.

Ele aceitou-a com um gesto inesperado. Sua mão agarrou tanto a maçã quanto a mão que a ofertou. Um passo adiante e ele a encarava de perto. A moça tentou se afastar, mas a árvore estava às suas costas e assim, por algum motivo, sua amiga pareceu ser conivente com o abraço descabido no qual o homem tentava prendê-la. Em pânico, debateu-se como pôde. Um nó na garganta a impediu de gritar por ajuda enquanto o veterano a deitava entre as raízes e a vegetação rasteira.

Fora de si, sentindo náuseas e o correr das lágrimas, quase não percebeu a dor que a cortava o ventre. Sentia o peso daquele corpo estranho, o cheiro de maçã e a textura do capim. Via o Sol por entre os galhos e os globos vermelhos, maduros, nascidos entre eles. Não parecia real, aquela dor não era dela, pois não pertencia ao mundo que conhecera. Desfaleceu achando que tudo era um terrível pesadelo.

Nunca contou a ninguém. Ao retornarem à casa, os contratos já haviam sido feitos. Em estado de choque, subiu quieta para seu quarto, onde caiu num sono denso. Tudo acontecera tão rápido... E o tempo pode correr assim? Estava acostumada a um ritmo manso e livre de surpresas. Daquele dia em diante as coisas foram se dando com muita velocidade. 

Casório com poucos convidados, muitos presentes caros e insignificantes. Seus pais mudaram para uma propriedade ainda mais suntuosa, a meio dia de viagem, que foi conseguida na barganha do matrimônio. Deixaram o conselho veemente de que o mais sábio seria manter todo cuidado com Briar Rose, para que ela não saísse de casa, evitando o perigo da maldição, para o bem dela.

Os dias, para a recém-casada, se alternavam com muita fluidez. Eram passados sobre o leito da própria cama, com visitas freqüentes das criadas, que traziam refeições (geralmente desperdiçadas) e ocasionais do marido (em que ele sempre tirava proveito), acostumado a passar semanas percorrendo outras propriedades. 

A bela Briar Rose não acompanhava mais o calendário e as estações. Apenas sonhava em sua cama, quer estivesse acordada ou adormecida.

Afastando a folhagem de uma orelha-de-elefante, avistou, ao longe, uma floração amarelada. Caminhando entre as árvores, com cuidado para não tropeçar em pequenos vasos onde se refugiavam violetas, avançou até reconhecer um ipê amarelo. Sempre quisera uma árvore dessas no seu jardim, mas como fazer pra transplantá-la da floresta para o quintal da sua casa? Enquanto pensava nisso, notou um movimento brusco à sua direita. Troncos estavam mudando de lugar? Correu por um baixio de riacho seco, com medo. Olhando pra trás, percebeu que na verdade eram as patas de uma aranha-marrom, gigantesca, que a perseguia. Escorregou numa pedra lodosa. Queria gritar, mas as cordas vocais não vibravam, como se entrelaçadas.

Quem abriu as janelas? O Sol ofuscava a mobília do quarto, mas era um começo de tarde frio. Após fechar também as cortinas, seu anel dourado escorregou para debaixo da cama. Examinou suas mãos, que estavam guarnecidas por falanges de aparência frágil. Esgueirou-se para baixo do leito, em resgate à jóia. Era uma noite de Lua nova em um campo poeirento. Nenhum sinal do anel. Teve a sensação de que havia insetos ou talvez um rato com ela. Queria retornar, mas sua cintura estava inchada e dificultava o movimento. Começou a chorar, em vão.

Era noite e o jardim descansava em silêncio. Uma procissão de poucos integrantes seguia adiante, carregando lampiões. Pareciam medir o terreno, murmuravam cifras. De repente estava no pomar, e nem sinal deles. Uma chuva fina e gelada caía. Sob a meia-luz da Lua crescente, avistou uma árvore morta. Espalhadas no entorno, centenas de pétalas de rosa.

Boldo para curar os enjôos, é claro. Desde cedo aprendera a colher a erva no canteiro, mas não a preparar o chá. Uma borboleta monarca flutuava por ali. Era um dia nublado. As heras escalavam pelas grades de madeira da casa. Ouviu o som de cascos em marcha, cada vez mais nítido. Sentiu tontura e agarrou-se ao dossel, ofegante. No braço direito, marcas de mordidas abaixo do ombro. Sim, devia ter rato ali. Se fossem seus pais chegando numa carruagem, pediria um pedaço de torta de maçã, bem quente. Nunca negavam os desejos do seu apetite, não importava a receita.

Estava escuro de novo, exceto por algumas frestas das janelas. Devia ser Lua cheia. No quarto abafado tinha mais alguém. Mãos suadas pressionavam seu peito. O corpo não tinha mais forma, só um incômodo volume, e se movia contra a vontade dela. Lembrou, sem comoção, das montanhas que avistara tempos atrás. Estava acostumada a refazer o trajeto na mente, nas noites de embate. Ai, o rato. Eram as noites quando sonhava com uma luta entre ela e exércitos de cavaleiros, munida de um regador mágico causador de dilúvios.

A provação durou da alvorada ao anoitecer. Da dor nasceu o Sol, da tristeza nasceu a Lua. Vozes se alternavam ao seu redor. Em direções diferentes do quarto, às vezes ela enxergava a mão que vestia um anel. Finalmente acharam? Havia também muitas outras, mas elas só vestiam vermelho ou carregavam panos quentes. Viu descer do teto uma noite sem estrelas.

Os sonhos passaram a ser escassos. Dormia agora ao comando dos remédios que um cura trazia a cada lua. A casa tinha sons diferentes. Ou melhor, a casa voltara a ter sons. Nunca mais foi mordida pelo rato e, às vezes, de noite, tinha a impressão de ver uma senhora silenciosa espreitando pela porta entreaberta. 

Muito tempo correu assim, e nele Briar Rose lentamente recuperava as forças em sua cama, sem saber o significado do que lhe traziam os sentidos. Mas com o retorno da saúde, veio também a lucidez. Concluiu que o marido decididamente não a visitava mais e a senhora da casa era a sogra viúva. 

Através das janelas do quarto pouco se via. A vegetação envolveu a casa com ramos entrecruzados e folhagem hirsuta. O jardim não era mais que um terreno abandonado aos caprichos da flora e da fauna. Os vencedores ocuparam seus espaços e prosperaram.

Conforme a diminuição das dosagens que recebia, já sentia se apta a travar diálogos simples com as criadas – que eram totalmente desconhecidas. Com algum esforço descobriu que seus filhos eram um casal de gêmeos que já sabiam andar bem. Eram pálidos e retraídos. A velha sogra tratava-os com autoridade, como se fosse a mãe, e não os deixava saírem para o jardim, território que ninguém tinha interesse em cuidar.

Seus pais haviam falecido em um naufrágio, havia mais de um ano. Seu marido, com base na invalidez da esposa, fixara residência em uma região do outro lado do país, onde levava uma vida de excessos. A viúva havia criado interesse nas crianças e planejava fazer do menino um cavaleiro e da menina uma boa noiva, com o fim de seguir acumulando riquezas, influência e perpetuar a família.

Muitas informações de uma vez só, e algumas delas eram difíceis de processar. Durante muitos dias manteve-se ainda no quarto, sonhando ou observando as mudanças do céu através das folhas da janela aberta. Sentia que não tinha forças pra alterar os rumos da sua vida ou a dos seus filhos, que, aliás, eram proibidos de subir até o quarto dela.

Era noite e os grilos faziam por onde serem ouvidos em toda a região. Via a casa dormir sem qualquer incômodo. Andava por corredores estranhos com janelas e portas familiares. De uma destas saiu um cavalo marrom, ferido no pescoço, que avançava pelo corredor a plena carga.

Era dia e um vulto ligeiro oscilava entre as folhas da janela. O som de asas em movimento a fez temer que um grande inseto do jardim havia achado seu esconderijo. O bicho havia entrado no quarto, pousando na escrivaninha. Instantes após cessar de se mover, Briar Rose tomou coragem e espiou para fora das cobertas. Era uma andorinha que agonizava sobre seus livros empoeirados.

Era noite e o silêncio dos aposentos intimidava. Movimentação livre só era possível graças à sutileza. Caçava figuras gravadas em metais variados. Aos poucos pilhava todos ao seu alcance, aproveitando as horas de calmaria. Um tesouro de pirata que era seu, para enterrar onde quisesse.

Cuidava do pássaro dia e noite, bem junto de si. Era a primeira amizade em muitos anos. Com ele discutia novos planos, uma promessa de liberdade. Logo, refeita e bem alimentada, a ave dava sinais de querer partir de volta para o céu aberto. 

As mãos de Briar Rose carregaram, com aquele antigo cuidado que nunca esquecera, o pássaro até o limiar da janela. Ele bicou a ponta dos dedos da mulher, mas essa dor não era incômoda, de forma alguma. A fez com que se sentisse viva. Sussurou “adeus, meu príncipe” e contemplou a ave ascender ao nível das árvores distantes, onde sumiu.

Era noite de Lua nova e as luzes da casa, à distância, ofereciam fraca resistência à escuridão. A altura da mata ultrapassava a cintura. Imaginava perigos ocultos no caminho, mas não tinha medo. Mesmo no caos do jardim abandonado, em poucos minutos os fachos de luz já incidiam sobre o belo arbusto de oleandro, que crescera muito mais do que a jardinagem de outrora permitia. Suas flores rosa-claro, reveladas assim em segredo, pareciam a imagem da inocência. Briar Rose sorriu. Era alegria, enfim, o que ela trazia consigo além das muitas folhas colhidas do arbusto, enquanto regressava à casa. Duas mariposas tentavam entrar também, através das janelas, sem chance de sucesso.

Nunca havia tido a oportunidade de trabalhar um pouco na cozinha, mas quando os outros dormiam o espaço era só dela. Sem pressa, logrou preparar seu chá, que depositou num copo de prata.

Reuniu coragem para adentrar lentamente no quarto da velha senhora. Um ronco baixinho incentivou um progresso mais célere até o lado da cama. Com muito cuidado, tapou o nariz da viúva para que ela abrisse a boca, e então derramou um pouco da infusão de folhas de oleandro, que já havia esfriado. Correu com passos leves para se esconder atrás das cortinas enquanto a velha tossia, espantada com o amargor, e tomava um copo d’água que esperava numa mesinha. A senhora da casa fez menção de chamar alguém ou levantar-se da cama. Mas voltou a dormir depois de alguns minutos, pois tudo parecia em ordem e era normal acordar sobressaltada de vez em quando. 

Deitada em seu quarto, Briar Rose não conseguia dormir. Viu o céu se iluminar de laranja antes de vestir o uniforme azul. Quase na hora do almoço, veio a notícia de que morrera a matriarca. 

Desorientadas, as criadas pediram orientações à nova senhora do lar. Sem qualquer preocupação com o destino da defunta ou da casa, as ordens foram a de que arrumassem uma mala de roupas para cada criança e mandassem chamar uma carruagem.

Reuniu algumas vestimentas, dobradas com cuidado, ao espólio das suas expedições noturnas, dentro da mesma bagagem.

Então, quando o Sol descia para que o mundo dormisse, partiu com seus filhos para muito, muito longe. Onde viveu.


(reconte um conto de fadas)

Red Riding Blood

She walked through the corpses slowly, as if tasting the deathness in them.

Slowly she scavenged, searching for something that we could not tell. The smell of iron impested the air, often disguising itself under the dampness after rain and the brooding humidity of the grass. And everywhere she stood, drops of red would splash in the dirt, propelling a wave of smaller drops that touched the tiniest of the leaves and lay scattered in dead skins and furs and fangs.

She wore a cloak, a cloak of red, the reddest red the world had ever seen. She wore it proudly, as if a gift. Or a prize.

She was covered in blood.

But not of her own. Of her enemies. 
The wolves hunted humans long before that age, eating the flesh, stripping the bones, leaving the rest wherever they roamed and always hungering for more. The battle against them had had unfortunate turns to mankind and now they were losing. They were weaker than ever, and yet some sling of force still stood in the lines of the Rödluvans, ancient family of wolfhunters. They were merciless and fierce, so similar to their nemesis in fury that in battle few could notice the differences between them.

And there she was. A Rödluvan child, caught so early in the webs of slaughter, and so innocent not to realize that she herself had inside her much of the wolves she had just killed. She wandered nonchalantly among her fallen opponents, humming to the tone of the morning songs while searching for some mysterious spoil.

But of course there was nothing to salvage.
Only humanity.

(Recontando contos de fadas)

segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O Livro Sagrado

Esse é o fim do mundo.

Hoje é o último dia de vida do Inimigo. E que vida miserável. Mas eu devo compreender que ele tinha um papel a cumprir no Grande Plano. Eu compreendo.

Estou me adiantando. Vou retornar no tempo, até o momento em que comecei a executar os Passos, para que entenda melhor.

Com os primeiros três Passos, nós, os Fiéis, assumimos controle sobre as megacorporações da tecnologia, dominamos as riquezas naturais e virtuais e as cortes superiores. O Quarto Passo trouxe um banquete de morte e o mundo sentiu esvair o peso de muitas vidas.

Os irmãos – nossos mártires –, que eram mantidos vivos através de suas consciências salvas nas Câmaras Perpétuas, foram agraciados com as imagens em tempo real do espraiar da aniquilação. Ainda arrepio ao lembrar suas reações inflamadas, seus clamores de vingança. Apesar de desejarem despertar, seu tempo haveria de chegar – aquela era hora de descansar. Fiz questão de lhes direcionar um pronunciamento. Eles mereciam.

Veio o início da provação final do planeta quando acionamos os deslocadores tectônicos. Tudo aquilo que era terra tremeu. O planeta teve sua pele desfigurada e os humanos se esconderam no subterrâneo. O sol tornou-se negro; a lua brilhava rubra como sangue. Há dados de expressivas baixas decorrentes de suicídio.

Os Fiéis sobreviventes receberam a Marca da Salvação em suas testas e um ato honorífico foi realizado em nosso abrigo. Fizemos meia hora de silêncio pelos que pereceram e pela Terra, nosso berço, que sofria como jamais antes desde que nos acolheu.

A angústia pelas dores do mundo ainda perduraria, pois o Grande Plano precisava seguir adiante.

O luto dos homens foi interrompido por uma estrela cadente. Não uma estrela qualquer – essa nós trouxemos. Quando explodiu na superfície, seu impacto foi tamanho que se acreditou que o Abismo fora finalmente revelado, em meio a chamas infinitas e ondas de lava.

Entretanto, isso não foi o mais assustador. A estrela trouxera consigo criaturas abomináveis: lembravam insetos, grandes gafanhotos do tamanho de leões, com carapaças similares a armaduras metálicas. Suas asas trovejavam uma fúria assassina que se abateu sobre todos aqueles que não possuíam a Marca da Salvação.

Manter sigilosos a descoberta e o contato com essa raça alienígena provou-se uma decisão acertada, meus generais me parabenizaram.

Era tempo de abandonar a terra-mãe agonizante. Ao meu chamado, a nave desceu através do céu enegrecido e nós embarcamos rumo ao Paraíso.

Durante a viagem, surgiram a Criança e o Inimigo. Uma mulher deu a luz e a Criança foi a primeira a nascer em meio aos Fiéis e, naturalmente, recebeu a devida iniciação. Fiz a mãe desaparecer, mas o pai estava entre nós, entre os Fiéis com a Marca. Tomamos a Criança sob nossa custódia e uma rebelião eclodiu em meio às estrelas. O pai, a quem chamavam Dragão, havia feito a cabeça de outros Fiéis e decidiram nos derrubar.

Contudo, os verdadeiros Fiéis não se dobram com facilidade, pois nossa Fé é como a água. O almirante liderou pessoalmente a guerra contra o Inimigo e este foi derrotado. Seus aliciados foram mortos durante o conflito. Eu podia tê-lo condenado à morte, mas não era o melhor movimento. Eu precisava do apoio incondicional de todos os Fiéis a bordo, principalmente depois de um conflito como aquele.

Eu demonstrei piedade e condenei o Inimigo à prisão na Terra no abrigo mais profundo e remoto. A Criança eu hei de criar como meu braço direito, baluarte da juventude da nossa Fé no novo mundo.

Logo me chegaram informações de que não apenas os Fiéis com a Marca da Salvação haviam sobrevivido, o que eu já esperava. Os sobreviventes na Terra estavam se organizando para nos seguir. Pior: estariam descobrindo o Grande Plano. Não que eles não soubessem, afinal todos sabiam, mas poucos o reconheciam em plena vista.

Então ordenei aos meus generais que eliminassem quaisquer possibilidades de sucesso dos homens na Terra. Assim foi feito.

A América foi destruída. Completamente devastada. Para sempre.

Senti que era o momento de celebrar a vida. Era preciso esperança. Casei-me e fiz uma grande festa com todos os Fiéis. Os resultados foram positivos, a mudança nos ânimos foi palpável.

Passamos a ativar os corpos produzidos pelos nossos brilhantes cientistas com as consciências de nossos mártires das Câmaras Perpétuas que trazíamos conosco. Iríamos precisar de toda força humana possível em nosso novo lar anos-luz adiante.

Seguíamos em paz em nossa arca através do cosmo nebuloso e fizemos uma parada já planejada para abastecer os suprimentos no planeta amigo Trébia. A maioria da tripulação permaneceu em órbita na nave, mas a simples visão de tanta água foi refrescante, embora saudosamente triste, pois já tivéramos nosso próprio planeta azul.

Trébia era conhecido como o planeta dos rios. Uma malha de inúmeros rios cruzavam os pequenos continentes. Porém, as terras trebianas possuíam algo importante que não ostentava muita fama: florestas. Foram nelas que se esconderam as forças dos gafanhotos alienígenas que nos atacaram.

Liderados pelo Inimigo, protagonizaram uma feroz emboscada sobre nossa tripulação em terra firme. Com os reforços rápidos de nossa nave, conseguimos resistir e ainda capturar o Inimigo, mas a custo de grandes perdas.

Uma vez mais o Inimigo nos surpreendia e uma vez mais nossas forças unidas prevaleciam.

Restava óbvio que em todas as raças havia aqueles em que se podia confiar e aqueles que eram traidores da Fé.

Pela última vez, julguei o Inimigo. Entretanto, o tempo de misericórdia se fora e o condenei ao Fogo Supremo. Como não tínhamos condições adequadas para realizar a punição naquele momento, o Dragão foi induzido ao sono criogênico e só retornou à consciência quando concluíamos nossa jornada.

Este novo planeta foi rebatizado de Novo Paraíso e era idêntico à Terra em termos de condições de vida. A maior diferença visível era as três luas que o circundavam. No interior delas, assim como no interior de nossa antiga Lua, residiam as forças aliadas que tornaram tudo possível.

Antes de aterrissarmos, porém, a sentença do Inimigo deve ser cumprida. Temos uma nova era a nossa espera milhares de quilômetros abaixo dos nossos pés. Os males do passado devem lá continuar… ou passado se tornar.

A execução está sendo acompanhada por todos na nave. Eu dou a ordem. A cápsula com o Inimigo amarrado dentro é disparada na velocidade da luz em direção à estrela do nosso novo sistema – ao nosso novo sol. Há uma câmera transmitindo da cápsula e meus generais monitoram o trajeto com atenção máxima. O sinal da câmera se perde e vem a confirmação: o Inimigo ardeu no Fogo. Suas últimas palavras antes de deixar a nave foram “Meu sangue persiste!”.

Claro que o Inimigo se referia à Criança, mas ele nos subestima. Ela crescerá na nossa Fé e nossa Fé é como a água. É o solvente universal de todas as impurezas da alma.

Há júbilo, lágrimas de diferentes emoções e também silêncio. Acredito que os Fiéis reagem à morte do Inimigo como se ao próprio passado, materializado na forma de um mundo cadáver em um sistema há anos-luz de distância.

Mas nem tudo ficou para trás. Há algo que deve abandonar a existência material para sempre: o livro sagrado. Está sobre minha mesa branca enquanto eu te faço essas considerações. Você, que não passa do meu eu anterior e que deve se tornar passado junto com esse livro.

Pois esse livro carrega o Grande Plano e as verdades que em Novo Paraíso não passam de malefícios à Fé. Por isso, eu o levo à máquina de incineração e também o relego ao fogo.

E esse é o fim do mundo.

Vou até a ponte de comando e assisto alcançarmos nosso destino. A cidade que projetei logo se torna visível. Os Fiéis visualizam o novo bastião da humanidade e são tomados pelo assombro. Sinto uma emoção que não é possível descrever em nenhuma língua que conheço.

Eis Nova Alexandria, a Cidade da Pureza e da Vida. Erguida com ouro tão puro como vidro e adornada com pedras preciosas desconhecidas pelos humanos do Sistema Solar, será o doce lar das próximas gerações. O glorioso e eterno centro de nossa raça. Toda ignominia e falsidade será banida e a paz reinará.

Aguardo com ansiedade o novo livro sagrado a ser escrito pelos meus discípulos. Esse livro nos levará através… de tudo.

Proclamará minha vitória eterna.


(Apocalypse Please)

domingo, 6 de outubro de 2013

Passando a limpo

Mateus estava na entrada do castelo, na dúvida se permanecia ou recuava para a defesa que estava montada dentro dos corredores. Cinco ou seis clãs haviam se juntado para invadi-lo, e havia tanta gente entrando ao mesmo tempo, que ele logo percebeu que sua vida não duraria mais um minuto caso não se juntasse aos integrantes do seu grupo. Rajadas de flechas derrubaram um bruxo que subia as escadas com ele. Magias de várias cores eram vistas ao redor, numa confusão em que era difícil distinguir qual causaria mais dano naquele momento.

A imagem de Mateus, uma bela dançarina com um chapéu de girassol sobre seus cabelos azuis, já estava quase completando o percurso que a levaria até o próximo salão, quando o som de uma sirene fez com que tudo fosse ficando embaçado e escuro.

De repente, luz. E a consciência de que, na verdade, Mateus estava dentro de uma sala de aula vazia. Como acontecera tantas vezes, havia dormido durante a aula de Ciências. Ou seria Geografia? Que dia era hoje mesmo? Sem perder tempo com esses questionamentos, o garoto se dirigiu com pressa para o pátio da escola, pois a sirene indicava o começo do intervalo – e da hora do lanche.

Com muito desgosto, nosso protagonista viu que os alunos estavam começando a voltar para dentro das salas. Traído pelo conforto da sua mesa e do ar-condicionado, percebeu que dormiu demais: aquele tinha sido o segundo sinal e o intervalo acabou. Correu até a cantina, mas o balcão já estava fechado. Com semblante ranzinza e sem ligar muito para as brincadeiras dos colegas, voltou para o seu lugar de costume. Ainda com a testa vermelha de tanto pressioná-la contra os braços, viu com certa satisfação a professora de Inglês começar a aula que, com a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, era a última da manhã.

Infame! Vamos logo pra casa, que eu ainda não comi nada hoje. Ande.

Mateus e sua irmã, que vamos chamar de Zefinha, almoçaram com muito gosto. Naquele dia era arroz, feijão verde, macaxeira cozida e carne assada. Suco de laranja. Depois ele deitou num sono pesado até o fim da tarde. Mexeu na Internet, que hoje não tinha muitos recados, e depois jogou até tarde da noite. Esquentou a janta foi deitar logo, pois amanhã ainda era dia de aula. A semana teimava em não passar ligeiro.

Após mudar de posição algumas vezes na cama durante um par de horas, pensando primeiro sobre a imensa quantidade de variáveis envolvidas na evolução da sua personagem e depois na menina bonitinha de óculos (seu amor platônico) que sentava duas cadeiras pra frente, as idéias se juntaram de alguma maneira para lembrá-lo de um fato assustador: amanhã tem prova de Matemática!

Pegou seu caderno e o livro da matéria, acendeu a luz e começou a folhear em busca dos conteúdos mais recentes. Só que havia dois problemas. O primeiro era que o último copiado do quadro estava com a data de duas semanas atrás. E o segundo era que, por ser final de ano, provavelmente o professor ia fazer como nos anos anteriores, ou seja, cobrar conteúdo não apenas do quarto bimestre. Cada vez mais nervoso e confuso, pensou em pedir ajuda pra algum amigo. Mas estava tarde pra telefonar pra casa de alguém, e entrar na Internet ia acordar a casa toda com o barulho da conexão discada.

Deixe estar, o jeito vai ser fingir que não estou bem e faltar amanhã. Pra isso existe reposição, tranquilizou-se.

Com efeito, essa solução trouxe o sono de volta. Mateus dormiu até ser acordado por Zefinha, que normalmente não era quem o acordava. Ela trazia uma notícia ruim: a mãe deles havia acabado de sair mais cedo, pra viajar a trabalho. E então ele precisaria ir à escola com a irmã, que ainda era muito nova, porque ela tinha uma prova e não podia faltar.

Para que Zefinha não desconfiasse de nada, colocou o uniforme, comeu alguns biscoitos e pegaram o caminho da escola, a pé. Ele estava resolvido a dar alguma desculpa para não entrar junto com ela, e assim escapar de volta pra casa. Mas os infortúnios não facilitaram a vida do nosso herói. Três esquinas antes da escola encontraram com a Irmã Aparecida, que naqueles tempos era uma das supervisoras do colégio religioso. Ela fez questão de acompanhar o casal de irmãos. O desespero começava a pesar nos ombros de Mateus, que, certo do seu sucesso, nem tinha colocado o livro de Matemática e o caderno na mochila.

Enfileirou-se junto à sua turma para cantarem o hino da escola, mas seus lábios não se mexiam. Olhava ao redor, sem prestar atenção em nada, sem conseguir aceitar o fato de que tinha uma prova para fazer dali a quinze minutos. As vozes desafinadas dos colegas pareciam zombar dele e o instrumental da música era a conjunção de acidentes de trânsito com as trombetas do apocalipse. O purgatório seria começar as férias mais tarde, o inferno a reprovação. Pior que tudo, imaginava o olhar dos pais enquanto cortavam seu acesso ao computador.

Seguiu a fila dos condenados e sentou na mesma cadeira de ontem. Mas agora era como se sentasse numa cadeira elétrica. Arrependido dos seus pecados, pedia a Deus que a prova não viesse difícil. Já vinha o professor, colocando os papéis – sim, mais de uma folha! quem sabe três – em cima da mesa de cada estudante. O pânico foi maior que a resignação, por isso Mateus levantou o braço e pediu para ir ao banheiro.

Num tempo que pareceu maior que a eternidade, trancou-se a pensar. Sua presença na aula fora confirmada, o único jeito de não fazer a prova sem levar um zero era passar por um mal súbito. Não podia ser qualquer dor de cabeça ou tontura. Apesar de trabalharem em uma escola que ensinava religião, eles teriam que ver para crer.

Sentindo-se o garoto mais abjeto do planeta, Mateus aproveitou o banheiro vazio para destacar da parede o vidro de sabonete líquido que ficava perto da pia. Sem pensar em mais nada, sorveu o conteúdo até a metade, mais que isso a gastura não permitia. Uma voz dentro de si alertava, roucamente, que não tinha sido uma boa idéia.

Mas o mal-estar salvador já estava surgindo. Após não mais que cinco passos no corredor, Mateus começou a ter espasmos típicos da ânsia de vômito. Precisava andar mais rápido pra achar uma testemunha.

O coração batendo acelerado, o estômago doendo, a pele suando frio, ele cedeu ao inadiável: vomitou escandalosamente em cima de um banco de concreto onde buscou apoio. Quando deu uma pausa, percorreu o pátio com o olhar, em busca de alguém para buscar ajuda e confirmação da invalidez.

A alguns metros dele estava a menina de óculos que sentava duas cadeiras pra frente, horrorizada. Uma onda de vergonha quebrou em cima da cabeça de Mateus, que, enquanto dobrava o corpo para expulsar mais sabonete pela boca, queria morrer.



(Apocalypse Please) 

Sea of Piles

The Sea of Piles extended far beyond the horizon. It smelled like rust and iron.

Belch was standing at the end, peeking through the odd waves that formed from the shift of the grey winds and fogs. He got used to the scent of that mass of wreckage a long time ago, and did not care much. 

Periodically he would set expeditions to salvage scraps from the sea. It was slow and relentless, always moving and changing the places of things. Once people tried to build things on it, just to have them scrambled in a matter of hours. A whole lot of useful things could yet be found there, if you happened to be in the right time and place. Belch would not venture too far from the coast, however. It was not safe.

The sky looked forever patchy and ominous. There would be no signs of rain that day, Belch thought. After some time he could tell the weather as easily as a duck would go north in winter season. He scratched his peppered beard and went inside, feeling his bones chill with the breeze. His shack was made of steel and properly built by his father. It would shake and rasp, but never failed to resist against ironstorms and hurricanes. 

Inside, Belch took a sip from his muggle and tasted the bitterness of his coffee. The steam flowed through the air and danced to the rhythm of the heater blows. The radio was on.

"...the struggle seems to be coming to an end" said a female voice. "The United States of East America have subdued Saint Petersburg forces in the Arctic front and will descend to Moscow, resulting in what could be the end of the war."

While the radio reporter rambled on, Belch only smiled a bit. "There's no way it can ever be won", he thought. "Unless..."

The reporter continued. "...New York seems to doubt the capacity of the Russian top military officers to activate the few nuclear ogives left in enemy territory. 'We have them under cybercontrol', said earlier the Secretary of Defense Bruce Weinberger. It seems somehow unclear if..."

Belch yawned, suddenly tired. "Maybe that's what we need to end all this. Maybe it's time for something biblical", he said.

Outside the winds were ravishing sand and steel. An ironstorm was certainly on its way.



(Apocalypse Please)

sexta-feira, 4 de outubro de 2013

backspace dementia

Bem-vindos(as), possíveis leitores(as).

O backspace dementia é um espaço de criações individuais, mas unidas por temas em comum e pelo mútuo incentivo entre os participantes do blog.

Funciona assim: 1) a cada tema escolhido, teremos duas semanas para postar nossos textos
                           2) esses prazos sempre terminarão aos Domingos
                           3) um novo tema será escolhido e o ciclo se repetirá
                           4) os temas de cada quinzena serão indicados no final de cada texto, entre ( )
                           5) mais do respeitar os prazos, os prazos irão respeitar nossas rotinas

Comentários, sugestões, pedidos, críticas - ficaremos sempre muito gratos pelo feedback que nos oferecerem.