domingo, 6 de outubro de 2013

Passando a limpo

Mateus estava na entrada do castelo, na dúvida se permanecia ou recuava para a defesa que estava montada dentro dos corredores. Cinco ou seis clãs haviam se juntado para invadi-lo, e havia tanta gente entrando ao mesmo tempo, que ele logo percebeu que sua vida não duraria mais um minuto caso não se juntasse aos integrantes do seu grupo. Rajadas de flechas derrubaram um bruxo que subia as escadas com ele. Magias de várias cores eram vistas ao redor, numa confusão em que era difícil distinguir qual causaria mais dano naquele momento.

A imagem de Mateus, uma bela dançarina com um chapéu de girassol sobre seus cabelos azuis, já estava quase completando o percurso que a levaria até o próximo salão, quando o som de uma sirene fez com que tudo fosse ficando embaçado e escuro.

De repente, luz. E a consciência de que, na verdade, Mateus estava dentro de uma sala de aula vazia. Como acontecera tantas vezes, havia dormido durante a aula de Ciências. Ou seria Geografia? Que dia era hoje mesmo? Sem perder tempo com esses questionamentos, o garoto se dirigiu com pressa para o pátio da escola, pois a sirene indicava o começo do intervalo – e da hora do lanche.

Com muito desgosto, nosso protagonista viu que os alunos estavam começando a voltar para dentro das salas. Traído pelo conforto da sua mesa e do ar-condicionado, percebeu que dormiu demais: aquele tinha sido o segundo sinal e o intervalo acabou. Correu até a cantina, mas o balcão já estava fechado. Com semblante ranzinza e sem ligar muito para as brincadeiras dos colegas, voltou para o seu lugar de costume. Ainda com a testa vermelha de tanto pressioná-la contra os braços, viu com certa satisfação a professora de Inglês começar a aula que, com a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, era a última da manhã.

Infame! Vamos logo pra casa, que eu ainda não comi nada hoje. Ande.

Mateus e sua irmã, que vamos chamar de Zefinha, almoçaram com muito gosto. Naquele dia era arroz, feijão verde, macaxeira cozida e carne assada. Suco de laranja. Depois ele deitou num sono pesado até o fim da tarde. Mexeu na Internet, que hoje não tinha muitos recados, e depois jogou até tarde da noite. Esquentou a janta foi deitar logo, pois amanhã ainda era dia de aula. A semana teimava em não passar ligeiro.

Após mudar de posição algumas vezes na cama durante um par de horas, pensando primeiro sobre a imensa quantidade de variáveis envolvidas na evolução da sua personagem e depois na menina bonitinha de óculos (seu amor platônico) que sentava duas cadeiras pra frente, as idéias se juntaram de alguma maneira para lembrá-lo de um fato assustador: amanhã tem prova de Matemática!

Pegou seu caderno e o livro da matéria, acendeu a luz e começou a folhear em busca dos conteúdos mais recentes. Só que havia dois problemas. O primeiro era que o último copiado do quadro estava com a data de duas semanas atrás. E o segundo era que, por ser final de ano, provavelmente o professor ia fazer como nos anos anteriores, ou seja, cobrar conteúdo não apenas do quarto bimestre. Cada vez mais nervoso e confuso, pensou em pedir ajuda pra algum amigo. Mas estava tarde pra telefonar pra casa de alguém, e entrar na Internet ia acordar a casa toda com o barulho da conexão discada.

Deixe estar, o jeito vai ser fingir que não estou bem e faltar amanhã. Pra isso existe reposição, tranquilizou-se.

Com efeito, essa solução trouxe o sono de volta. Mateus dormiu até ser acordado por Zefinha, que normalmente não era quem o acordava. Ela trazia uma notícia ruim: a mãe deles havia acabado de sair mais cedo, pra viajar a trabalho. E então ele precisaria ir à escola com a irmã, que ainda era muito nova, porque ela tinha uma prova e não podia faltar.

Para que Zefinha não desconfiasse de nada, colocou o uniforme, comeu alguns biscoitos e pegaram o caminho da escola, a pé. Ele estava resolvido a dar alguma desculpa para não entrar junto com ela, e assim escapar de volta pra casa. Mas os infortúnios não facilitaram a vida do nosso herói. Três esquinas antes da escola encontraram com a Irmã Aparecida, que naqueles tempos era uma das supervisoras do colégio religioso. Ela fez questão de acompanhar o casal de irmãos. O desespero começava a pesar nos ombros de Mateus, que, certo do seu sucesso, nem tinha colocado o livro de Matemática e o caderno na mochila.

Enfileirou-se junto à sua turma para cantarem o hino da escola, mas seus lábios não se mexiam. Olhava ao redor, sem prestar atenção em nada, sem conseguir aceitar o fato de que tinha uma prova para fazer dali a quinze minutos. As vozes desafinadas dos colegas pareciam zombar dele e o instrumental da música era a conjunção de acidentes de trânsito com as trombetas do apocalipse. O purgatório seria começar as férias mais tarde, o inferno a reprovação. Pior que tudo, imaginava o olhar dos pais enquanto cortavam seu acesso ao computador.

Seguiu a fila dos condenados e sentou na mesma cadeira de ontem. Mas agora era como se sentasse numa cadeira elétrica. Arrependido dos seus pecados, pedia a Deus que a prova não viesse difícil. Já vinha o professor, colocando os papéis – sim, mais de uma folha! quem sabe três – em cima da mesa de cada estudante. O pânico foi maior que a resignação, por isso Mateus levantou o braço e pediu para ir ao banheiro.

Num tempo que pareceu maior que a eternidade, trancou-se a pensar. Sua presença na aula fora confirmada, o único jeito de não fazer a prova sem levar um zero era passar por um mal súbito. Não podia ser qualquer dor de cabeça ou tontura. Apesar de trabalharem em uma escola que ensinava religião, eles teriam que ver para crer.

Sentindo-se o garoto mais abjeto do planeta, Mateus aproveitou o banheiro vazio para destacar da parede o vidro de sabonete líquido que ficava perto da pia. Sem pensar em mais nada, sorveu o conteúdo até a metade, mais que isso a gastura não permitia. Uma voz dentro de si alertava, roucamente, que não tinha sido uma boa idéia.

Mas o mal-estar salvador já estava surgindo. Após não mais que cinco passos no corredor, Mateus começou a ter espasmos típicos da ânsia de vômito. Precisava andar mais rápido pra achar uma testemunha.

O coração batendo acelerado, o estômago doendo, a pele suando frio, ele cedeu ao inadiável: vomitou escandalosamente em cima de um banco de concreto onde buscou apoio. Quando deu uma pausa, percorreu o pátio com o olhar, em busca de alguém para buscar ajuda e confirmação da invalidez.

A alguns metros dele estava a menina de óculos que sentava duas cadeiras pra frente, horrorizada. Uma onda de vergonha quebrou em cima da cabeça de Mateus, que, enquanto dobrava o corpo para expulsar mais sabonete pela boca, queria morrer.



(Apocalypse Please) 

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