Mateus estava na entrada do castelo, na dúvida se permanecia
ou recuava para a defesa que estava montada dentro dos corredores. Cinco ou
seis clãs haviam se juntado para invadi-lo, e havia tanta gente entrando ao
mesmo tempo, que ele logo percebeu que sua vida não duraria mais um minuto caso
não se juntasse aos integrantes do seu grupo. Rajadas de flechas derrubaram um
bruxo que subia as escadas com ele. Magias de várias cores eram vistas ao
redor, numa confusão em que era difícil distinguir qual causaria mais dano
naquele momento.
A imagem de Mateus, uma bela dançarina com um chapéu de
girassol sobre seus cabelos azuis, já estava quase completando o percurso que a
levaria até o próximo salão, quando o som de uma sirene fez com que tudo fosse
ficando embaçado e escuro.
De repente, luz. E a consciência de que, na verdade, Mateus
estava dentro de uma sala de aula vazia. Como acontecera tantas
vezes, havia dormido durante a aula de Ciências. Ou seria Geografia? Que dia
era hoje mesmo? Sem perder tempo com esses questionamentos, o garoto se dirigiu
com pressa para o pátio da escola, pois a sirene indicava o começo do intervalo
– e da hora do lanche.
Com muito desgosto, nosso protagonista viu que os alunos
estavam começando a voltar para dentro das salas. Traído pelo conforto da sua
mesa e do ar-condicionado, percebeu que dormiu demais: aquele tinha sido o
segundo sinal e o intervalo acabou. Correu até a cantina, mas o balcão já
estava fechado. Com semblante ranzinza e sem ligar muito para as brincadeiras
dos colegas, voltou para o seu lugar de costume. Ainda com a testa vermelha de
tanto pressioná-la contra os braços, viu com certa satisfação a professora de Inglês
começar a aula que, com a graça de Nosso Senhor Jesus Cristo, era a última da manhã.
Infame! Vamos logo pra casa, que eu ainda não comi nada
hoje. Ande.
Mateus e sua irmã, que vamos chamar de Zefinha, almoçaram
com muito gosto. Naquele dia era arroz, feijão verde, macaxeira cozida e carne
assada. Suco de laranja. Depois ele deitou num sono pesado até o fim da tarde.
Mexeu na Internet, que hoje não tinha muitos recados, e depois jogou até tarde da
noite. Esquentou a janta foi deitar logo, pois amanhã ainda era dia de aula. A
semana teimava em não passar ligeiro.
Após mudar de posição algumas vezes na cama durante um par
de horas, pensando primeiro sobre a imensa quantidade de variáveis envolvidas
na evolução da sua personagem e depois na menina bonitinha de óculos (seu amor
platônico) que sentava duas cadeiras pra frente, as idéias se juntaram de
alguma maneira para lembrá-lo de um fato assustador: amanhã tem prova de
Matemática!
Pegou seu caderno e o livro da matéria, acendeu a luz e
começou a folhear em busca dos conteúdos mais recentes. Só que havia dois
problemas. O primeiro era que o último copiado do quadro estava com a data de
duas semanas atrás. E o segundo era que, por ser final de ano, provavelmente o
professor ia fazer como nos anos anteriores, ou seja, cobrar conteúdo não
apenas do quarto bimestre. Cada vez mais nervoso e confuso, pensou em pedir
ajuda pra algum amigo. Mas estava tarde pra telefonar pra casa de alguém, e
entrar na Internet ia acordar a casa toda com o barulho da conexão discada.
Deixe estar, o jeito vai ser fingir que não estou bem e
faltar amanhã. Pra isso existe reposição, tranquilizou-se.
Com efeito, essa solução trouxe o sono de volta. Mateus
dormiu até ser acordado por Zefinha, que normalmente não era quem o acordava.
Ela trazia uma notícia ruim: a mãe deles havia acabado de sair mais cedo, pra
viajar a trabalho. E então ele precisaria ir à escola com a irmã, que ainda era muito
nova, porque ela tinha uma prova e não podia faltar.
Para que Zefinha não desconfiasse de nada, colocou o
uniforme, comeu alguns biscoitos e pegaram o caminho da escola, a pé. Ele
estava resolvido a dar alguma desculpa para não entrar junto com ela, e assim
escapar de volta pra casa. Mas os infortúnios não facilitaram a vida do nosso
herói. Três esquinas antes da escola encontraram com a Irmã Aparecida, que
naqueles tempos era uma das supervisoras do colégio religioso. Ela fez questão
de acompanhar o casal de irmãos. O desespero começava a pesar nos ombros de
Mateus, que, certo do seu sucesso, nem tinha colocado o livro de Matemática e o
caderno na mochila.
Enfileirou-se junto à sua turma para cantarem o hino da
escola, mas seus lábios não se mexiam. Olhava ao redor, sem prestar atenção em
nada, sem conseguir aceitar o fato de que tinha uma prova para fazer dali a
quinze minutos. As vozes desafinadas dos colegas pareciam zombar dele e o
instrumental da música era a conjunção de acidentes de trânsito com as
trombetas do apocalipse. O purgatório
seria começar as férias mais tarde, o inferno a reprovação. Pior que tudo,
imaginava o olhar dos pais enquanto cortavam seu acesso ao computador.
Seguiu a fila dos condenados e sentou na mesma cadeira de
ontem. Mas agora era como se sentasse numa cadeira elétrica. Arrependido dos
seus pecados, pedia a Deus que a prova não viesse difícil. Já vinha o
professor, colocando os papéis – sim, mais de uma folha! quem sabe três – em
cima da mesa de cada estudante. O pânico foi maior que a resignação, por isso
Mateus levantou o braço e pediu para ir ao banheiro.
Num tempo que pareceu maior que a eternidade, trancou-se a
pensar. Sua presença na aula fora confirmada, o único jeito de não fazer a
prova sem levar um zero era passar por um mal súbito. Não podia ser qualquer
dor de cabeça ou tontura. Apesar de trabalharem em uma escola que ensinava
religião, eles teriam que ver para crer.
Sentindo-se o garoto mais abjeto do planeta, Mateus
aproveitou o banheiro vazio para destacar da parede o vidro de sabonete líquido
que ficava perto da pia. Sem pensar em mais nada, sorveu o conteúdo até a
metade, mais que isso a gastura não permitia. Uma voz dentro de si alertava,
roucamente, que não tinha sido uma boa idéia.
Mas o mal-estar salvador já estava surgindo.
Após não mais que cinco passos no corredor, Mateus começou a ter espasmos
típicos da ânsia de vômito. Precisava andar mais rápido pra achar uma
testemunha.
O coração batendo acelerado, o estômago doendo, a pele
suando frio, ele cedeu ao inadiável: vomitou escandalosamente em cima de um
banco de concreto onde buscou apoio. Quando deu uma pausa, percorreu o pátio com o olhar, em
busca de alguém para buscar ajuda e confirmação da invalidez.
A alguns metros dele estava a menina de óculos que sentava
duas cadeiras pra frente, horrorizada. Uma onda de vergonha quebrou em cima da
cabeça de Mateus, que, enquanto dobrava o corpo para expulsar mais sabonete
pela boca, queria morrer.
(Apocalypse Please)
Nenhum comentário:
Postar um comentário