Esse
é o fim do mundo.
Hoje é o último dia de vida do Inimigo.
E que vida miserável. Mas eu devo compreender que ele tinha um papel a cumprir
no Grande Plano. Eu compreendo.
Estou me adiantando. Vou retornar no
tempo, até o momento em que comecei a executar os Passos, para que entenda
melhor.
Com os primeiros três Passos, nós, os
Fiéis, assumimos controle sobre as megacorporações da tecnologia, dominamos as
riquezas naturais e virtuais e as cortes superiores. O Quarto Passo trouxe um banquete
de morte e o mundo sentiu esvair o peso de muitas vidas.
Os irmãos – nossos mártires –, que eram
mantidos vivos através de suas consciências salvas nas Câmaras Perpétuas, foram
agraciados com as imagens em tempo real do espraiar da aniquilação. Ainda
arrepio ao lembrar suas reações inflamadas, seus clamores de vingança. Apesar
de desejarem despertar, seu tempo haveria de chegar – aquela era hora de
descansar. Fiz questão de lhes direcionar um pronunciamento. Eles mereciam.
Veio o início da provação final do
planeta quando acionamos os deslocadores tectônicos. Tudo aquilo que era terra tremeu.
O planeta teve sua pele desfigurada e os humanos se esconderam no subterrâneo.
O sol tornou-se negro; a lua brilhava rubra como sangue. Há dados de
expressivas baixas decorrentes de suicídio.
Os Fiéis sobreviventes receberam a
Marca da Salvação em suas testas e um ato honorífico foi realizado em nosso
abrigo. Fizemos meia hora de silêncio pelos que pereceram e pela Terra, nosso
berço, que sofria como jamais antes desde que nos acolheu.
A angústia pelas dores do mundo ainda
perduraria, pois o Grande Plano precisava seguir adiante.
O luto dos homens foi interrompido por
uma estrela cadente. Não uma estrela qualquer – essa nós trouxemos. Quando
explodiu na superfície, seu impacto foi tamanho que se acreditou que o Abismo
fora finalmente revelado, em meio a chamas infinitas e ondas de lava.
Entretanto, isso não foi o mais
assustador. A estrela trouxera consigo criaturas abomináveis: lembravam
insetos, grandes gafanhotos do tamanho de leões, com carapaças similares a
armaduras metálicas. Suas asas trovejavam uma fúria assassina que se abateu
sobre todos aqueles que não possuíam a Marca da Salvação.
Manter sigilosos a descoberta e o
contato com essa raça alienígena provou-se uma decisão acertada, meus generais
me parabenizaram.
Era tempo de abandonar a terra-mãe
agonizante. Ao meu chamado, a nave desceu através do céu enegrecido e nós
embarcamos rumo ao Paraíso.
Durante a viagem, surgiram a Criança e o
Inimigo. Uma mulher deu a luz e a Criança foi a primeira a nascer em meio aos
Fiéis e, naturalmente, recebeu a devida iniciação. Fiz a mãe desaparecer, mas o
pai estava entre nós, entre os Fiéis com a Marca. Tomamos a Criança sob nossa
custódia e uma rebelião eclodiu em meio às estrelas. O pai, a quem chamavam
Dragão, havia feito a cabeça de outros Fiéis e decidiram nos derrubar.
Contudo, os verdadeiros Fiéis não se dobram
com facilidade, pois nossa Fé é como a água. O almirante liderou pessoalmente a
guerra contra o Inimigo e este foi derrotado. Seus aliciados foram mortos
durante o conflito. Eu podia tê-lo condenado à morte, mas não era o melhor
movimento. Eu precisava do apoio incondicional de todos os Fiéis a bordo,
principalmente depois de um conflito como aquele.
Eu demonstrei piedade e condenei o
Inimigo à prisão na Terra no abrigo mais profundo e remoto. A Criança eu hei de
criar como meu braço direito, baluarte da juventude da nossa Fé no novo mundo.
Logo me chegaram informações de que não
apenas os Fiéis com a Marca da Salvação haviam sobrevivido, o que eu já
esperava. Os sobreviventes na Terra estavam se organizando para nos seguir.
Pior: estariam descobrindo o Grande Plano. Não que eles não soubessem, afinal
todos sabiam, mas poucos o reconheciam em plena vista.
Então ordenei aos meus generais que eliminassem
quaisquer possibilidades de sucesso dos homens na Terra. Assim foi feito.
A América foi destruída. Completamente
devastada. Para sempre.
Senti que era o momento de celebrar a
vida. Era preciso esperança. Casei-me e fiz uma grande festa com todos os
Fiéis. Os resultados foram positivos, a mudança nos ânimos foi palpável.
Passamos a ativar os corpos produzidos
pelos nossos brilhantes cientistas com as consciências de nossos mártires das
Câmaras Perpétuas que trazíamos conosco. Iríamos precisar de toda força humana
possível em nosso novo lar anos-luz adiante.
Seguíamos em paz em nossa arca através
do cosmo nebuloso e fizemos uma parada já planejada para abastecer os
suprimentos no planeta amigo Trébia. A maioria da tripulação permaneceu em
órbita na nave, mas a simples visão de tanta água foi refrescante, embora
saudosamente triste, pois já tivéramos nosso próprio planeta azul.
Trébia era conhecido como o planeta dos
rios. Uma malha de inúmeros rios cruzavam os pequenos continentes. Porém, as
terras trebianas possuíam algo importante que não ostentava muita fama:
florestas. Foram nelas que se esconderam as forças dos gafanhotos alienígenas
que nos atacaram.
Liderados pelo Inimigo, protagonizaram
uma feroz emboscada sobre nossa tripulação em terra firme. Com os reforços
rápidos de nossa nave, conseguimos resistir e ainda capturar o Inimigo, mas a
custo de grandes perdas.
Uma vez mais o Inimigo nos surpreendia e
uma vez mais nossas forças unidas prevaleciam.
Restava óbvio que em todas as raças
havia aqueles em que se podia confiar e aqueles que eram traidores da Fé.
Pela última vez, julguei o Inimigo.
Entretanto, o tempo de misericórdia se fora e o condenei ao Fogo Supremo. Como
não tínhamos condições adequadas para realizar a punição naquele momento, o
Dragão foi induzido ao sono criogênico e só retornou à consciência quando
concluíamos nossa jornada.
Este novo planeta foi rebatizado de Novo
Paraíso e era idêntico à Terra em termos de condições de vida. A maior
diferença visível era as três luas que o circundavam. No interior delas, assim
como no interior de nossa antiga Lua, residiam as forças aliadas que tornaram
tudo possível.
Antes de aterrissarmos, porém, a
sentença do Inimigo deve ser cumprida. Temos uma nova era a nossa espera
milhares de quilômetros abaixo dos nossos pés. Os males do passado devem lá
continuar… ou passado se tornar.
A execução está sendo acompanhada por
todos na nave. Eu dou a ordem. A cápsula com o Inimigo amarrado dentro é disparada
na velocidade da luz em direção à estrela do nosso novo sistema – ao nosso novo
sol. Há uma câmera transmitindo da cápsula e meus generais monitoram o trajeto
com atenção máxima. O sinal da câmera se perde e vem a confirmação: o Inimigo
ardeu no Fogo. Suas últimas palavras antes de deixar a nave foram “Meu sangue persiste!”.
Claro que o Inimigo se referia à
Criança, mas ele nos subestima. Ela crescerá na nossa Fé e nossa Fé é como a
água. É o solvente universal de todas as impurezas da alma.
Há júbilo, lágrimas de diferentes
emoções e também silêncio. Acredito que os Fiéis reagem à morte do Inimigo como
se ao próprio passado, materializado na forma de um mundo cadáver em um sistema
há anos-luz de distância.
Mas nem tudo ficou para trás. Há algo
que deve abandonar a existência material para sempre: o livro sagrado. Está
sobre minha mesa branca enquanto eu te faço essas considerações. Você, que não
passa do meu eu anterior e que deve se tornar passado junto com esse livro.
Pois esse livro carrega o Grande Plano e
as verdades que em Novo Paraíso não passam de malefícios à Fé. Por isso, eu o
levo à máquina de incineração e também o relego ao fogo.
E esse é o fim do mundo.
Vou até a ponte de comando e assisto
alcançarmos nosso destino. A cidade que projetei logo se torna visível. Os
Fiéis visualizam o novo bastião da humanidade e são tomados pelo assombro.
Sinto uma emoção que não é possível descrever em nenhuma língua que conheço.
Eis Nova Alexandria, a Cidade da Pureza
e da Vida. Erguida com ouro tão puro como vidro e adornada com pedras preciosas
desconhecidas pelos humanos do Sistema Solar, será o doce lar das próximas
gerações. O glorioso e eterno centro de nossa raça. Toda ignominia e falsidade
será banida e a paz reinará.
Aguardo com ansiedade o novo livro
sagrado a ser escrito pelos meus discípulos. Esse livro nos levará através… de
tudo.
Proclamará minha
vitória eterna.
(Apocalypse Please)
(Apocalypse Please)
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