segunda-feira, 7 de outubro de 2013

O Livro Sagrado

Esse é o fim do mundo.

Hoje é o último dia de vida do Inimigo. E que vida miserável. Mas eu devo compreender que ele tinha um papel a cumprir no Grande Plano. Eu compreendo.

Estou me adiantando. Vou retornar no tempo, até o momento em que comecei a executar os Passos, para que entenda melhor.

Com os primeiros três Passos, nós, os Fiéis, assumimos controle sobre as megacorporações da tecnologia, dominamos as riquezas naturais e virtuais e as cortes superiores. O Quarto Passo trouxe um banquete de morte e o mundo sentiu esvair o peso de muitas vidas.

Os irmãos – nossos mártires –, que eram mantidos vivos através de suas consciências salvas nas Câmaras Perpétuas, foram agraciados com as imagens em tempo real do espraiar da aniquilação. Ainda arrepio ao lembrar suas reações inflamadas, seus clamores de vingança. Apesar de desejarem despertar, seu tempo haveria de chegar – aquela era hora de descansar. Fiz questão de lhes direcionar um pronunciamento. Eles mereciam.

Veio o início da provação final do planeta quando acionamos os deslocadores tectônicos. Tudo aquilo que era terra tremeu. O planeta teve sua pele desfigurada e os humanos se esconderam no subterrâneo. O sol tornou-se negro; a lua brilhava rubra como sangue. Há dados de expressivas baixas decorrentes de suicídio.

Os Fiéis sobreviventes receberam a Marca da Salvação em suas testas e um ato honorífico foi realizado em nosso abrigo. Fizemos meia hora de silêncio pelos que pereceram e pela Terra, nosso berço, que sofria como jamais antes desde que nos acolheu.

A angústia pelas dores do mundo ainda perduraria, pois o Grande Plano precisava seguir adiante.

O luto dos homens foi interrompido por uma estrela cadente. Não uma estrela qualquer – essa nós trouxemos. Quando explodiu na superfície, seu impacto foi tamanho que se acreditou que o Abismo fora finalmente revelado, em meio a chamas infinitas e ondas de lava.

Entretanto, isso não foi o mais assustador. A estrela trouxera consigo criaturas abomináveis: lembravam insetos, grandes gafanhotos do tamanho de leões, com carapaças similares a armaduras metálicas. Suas asas trovejavam uma fúria assassina que se abateu sobre todos aqueles que não possuíam a Marca da Salvação.

Manter sigilosos a descoberta e o contato com essa raça alienígena provou-se uma decisão acertada, meus generais me parabenizaram.

Era tempo de abandonar a terra-mãe agonizante. Ao meu chamado, a nave desceu através do céu enegrecido e nós embarcamos rumo ao Paraíso.

Durante a viagem, surgiram a Criança e o Inimigo. Uma mulher deu a luz e a Criança foi a primeira a nascer em meio aos Fiéis e, naturalmente, recebeu a devida iniciação. Fiz a mãe desaparecer, mas o pai estava entre nós, entre os Fiéis com a Marca. Tomamos a Criança sob nossa custódia e uma rebelião eclodiu em meio às estrelas. O pai, a quem chamavam Dragão, havia feito a cabeça de outros Fiéis e decidiram nos derrubar.

Contudo, os verdadeiros Fiéis não se dobram com facilidade, pois nossa Fé é como a água. O almirante liderou pessoalmente a guerra contra o Inimigo e este foi derrotado. Seus aliciados foram mortos durante o conflito. Eu podia tê-lo condenado à morte, mas não era o melhor movimento. Eu precisava do apoio incondicional de todos os Fiéis a bordo, principalmente depois de um conflito como aquele.

Eu demonstrei piedade e condenei o Inimigo à prisão na Terra no abrigo mais profundo e remoto. A Criança eu hei de criar como meu braço direito, baluarte da juventude da nossa Fé no novo mundo.

Logo me chegaram informações de que não apenas os Fiéis com a Marca da Salvação haviam sobrevivido, o que eu já esperava. Os sobreviventes na Terra estavam se organizando para nos seguir. Pior: estariam descobrindo o Grande Plano. Não que eles não soubessem, afinal todos sabiam, mas poucos o reconheciam em plena vista.

Então ordenei aos meus generais que eliminassem quaisquer possibilidades de sucesso dos homens na Terra. Assim foi feito.

A América foi destruída. Completamente devastada. Para sempre.

Senti que era o momento de celebrar a vida. Era preciso esperança. Casei-me e fiz uma grande festa com todos os Fiéis. Os resultados foram positivos, a mudança nos ânimos foi palpável.

Passamos a ativar os corpos produzidos pelos nossos brilhantes cientistas com as consciências de nossos mártires das Câmaras Perpétuas que trazíamos conosco. Iríamos precisar de toda força humana possível em nosso novo lar anos-luz adiante.

Seguíamos em paz em nossa arca através do cosmo nebuloso e fizemos uma parada já planejada para abastecer os suprimentos no planeta amigo Trébia. A maioria da tripulação permaneceu em órbita na nave, mas a simples visão de tanta água foi refrescante, embora saudosamente triste, pois já tivéramos nosso próprio planeta azul.

Trébia era conhecido como o planeta dos rios. Uma malha de inúmeros rios cruzavam os pequenos continentes. Porém, as terras trebianas possuíam algo importante que não ostentava muita fama: florestas. Foram nelas que se esconderam as forças dos gafanhotos alienígenas que nos atacaram.

Liderados pelo Inimigo, protagonizaram uma feroz emboscada sobre nossa tripulação em terra firme. Com os reforços rápidos de nossa nave, conseguimos resistir e ainda capturar o Inimigo, mas a custo de grandes perdas.

Uma vez mais o Inimigo nos surpreendia e uma vez mais nossas forças unidas prevaleciam.

Restava óbvio que em todas as raças havia aqueles em que se podia confiar e aqueles que eram traidores da Fé.

Pela última vez, julguei o Inimigo. Entretanto, o tempo de misericórdia se fora e o condenei ao Fogo Supremo. Como não tínhamos condições adequadas para realizar a punição naquele momento, o Dragão foi induzido ao sono criogênico e só retornou à consciência quando concluíamos nossa jornada.

Este novo planeta foi rebatizado de Novo Paraíso e era idêntico à Terra em termos de condições de vida. A maior diferença visível era as três luas que o circundavam. No interior delas, assim como no interior de nossa antiga Lua, residiam as forças aliadas que tornaram tudo possível.

Antes de aterrissarmos, porém, a sentença do Inimigo deve ser cumprida. Temos uma nova era a nossa espera milhares de quilômetros abaixo dos nossos pés. Os males do passado devem lá continuar… ou passado se tornar.

A execução está sendo acompanhada por todos na nave. Eu dou a ordem. A cápsula com o Inimigo amarrado dentro é disparada na velocidade da luz em direção à estrela do nosso novo sistema – ao nosso novo sol. Há uma câmera transmitindo da cápsula e meus generais monitoram o trajeto com atenção máxima. O sinal da câmera se perde e vem a confirmação: o Inimigo ardeu no Fogo. Suas últimas palavras antes de deixar a nave foram “Meu sangue persiste!”.

Claro que o Inimigo se referia à Criança, mas ele nos subestima. Ela crescerá na nossa Fé e nossa Fé é como a água. É o solvente universal de todas as impurezas da alma.

Há júbilo, lágrimas de diferentes emoções e também silêncio. Acredito que os Fiéis reagem à morte do Inimigo como se ao próprio passado, materializado na forma de um mundo cadáver em um sistema há anos-luz de distância.

Mas nem tudo ficou para trás. Há algo que deve abandonar a existência material para sempre: o livro sagrado. Está sobre minha mesa branca enquanto eu te faço essas considerações. Você, que não passa do meu eu anterior e que deve se tornar passado junto com esse livro.

Pois esse livro carrega o Grande Plano e as verdades que em Novo Paraíso não passam de malefícios à Fé. Por isso, eu o levo à máquina de incineração e também o relego ao fogo.

E esse é o fim do mundo.

Vou até a ponte de comando e assisto alcançarmos nosso destino. A cidade que projetei logo se torna visível. Os Fiéis visualizam o novo bastião da humanidade e são tomados pelo assombro. Sinto uma emoção que não é possível descrever em nenhuma língua que conheço.

Eis Nova Alexandria, a Cidade da Pureza e da Vida. Erguida com ouro tão puro como vidro e adornada com pedras preciosas desconhecidas pelos humanos do Sistema Solar, será o doce lar das próximas gerações. O glorioso e eterno centro de nossa raça. Toda ignominia e falsidade será banida e a paz reinará.

Aguardo com ansiedade o novo livro sagrado a ser escrito pelos meus discípulos. Esse livro nos levará através… de tudo.

Proclamará minha vitória eterna.


(Apocalypse Please)

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