“E foste um difícil começo
Afasta o que não conheço
E quem vem de outro sonho feliz de cidade
Aprende depressa a chamar-te de realidade
Porque és o avesso do avesso do avesso do avesso”
Não estava acostumado a ver pessoas revirando sacos e latas
de lixo. De onde elas vieram? Que histórias elas poderiam me contar? Nas
grandes avenidas, nas ruas famosas e também nas vias de pouco uso, estão sempre
ali a procurar materiais bons de vender (como o alumínio) ou que ainda estejam
bons de comer.
Apesar da proibição, os novos lançamentos imobiliários da
cidade empregam dezenas de homens-seta (que muitas vezes são mulheres). Em
qualquer dia, ao descer a rua Topázio, aqui no bairro, você pode contar meia
dúzia desses trabalhadores enfrentando o Sol ou o frio para indicar aos
motoristas onde ficarão os novos condomínios de luxo. E lá no fundo do pequeno
vale entre a estação Ana Rosa e a Paraíso, casas mal-acabadas se escondem entre
as fileiras de prédios residenciais cada vez mais valorizados.
Imagino que numa guerra nós aprendemos a enfraquecer a empatia,
para não nos envolvermos demais com os destinos tristes da maioria dos que são
afetados por ela. Assim nós podemos economizar forças para cuidar de seguir o próprio
destino, realizar as tarefas pelas quais, por algum motivo, nos tornamos responsáveis.
Mesmo assim, tem momentos em que somos forçados, ainda que por detalhes
delicados, ao exercício da alteridade – tão necessário hoje, e sempre.
Mas o individualismo não nasce só desse mecanismo de defesa.
Faz parte de um conjunto de idéias que ativamente busca impor um projeto criado
por poucos. “Da força da grana que ergue e destrói coisas belas”. Em toda
cidade brasileira temos que lidar com isso, mas a escala paulistana multiplica o
peso. E o ritmo da competição – por tudo – pode seqüestrar as faculdades
mentais de quem chega com a defesa baixa.
Nem todos queremos entender os sentimentos que uma cidade nos traz. O que mais se vê são os bares, cinemas, parques e restaurantes lotados de pessoas que só querem relaxar, preparar corpo e mente pra mais outra semana.
A indiferença, que parece ter causa e efeitos estruturais (além de estruturantes) não reina tão soberana quanto se diz. Às vezes o ambiente e a ocasião fazem-nos mais receptivos à possibilidade de encontrar apoio nas relações humanas, sejam elas como forem.
A indiferença, que parece ter causa e efeitos estruturais (além de estruturantes) não reina tão soberana quanto se diz. Às vezes o ambiente e a ocasião fazem-nos mais receptivos à possibilidade de encontrar apoio nas relações humanas, sejam elas como forem.
Um velhinho no parque, que passou o dia lá com seus dois cachorros, puxa assunto com qualquer pessoa que sentar ao seu lado ou acariciar os animais. Moças do interior ou de outros estados, quando estão num bar animado, oferecem simpatia aos estranhos que puxam assunto. A funcionária de um museu dá mostra da maior solicitude imaginável, como se isso fosse algo corriqueiro. Um pedestre oferece água a um trabalhador de rua. Um morador de rua oferece arte em troca de moedas e algum reconhecimento.
Nessa variedade, nessa dinâmica de mediações, quem eu posso ser? Para dominar todas as condições (algumas, decisivas, eu herdei) de definir meus papéis, é preciso, antes, aprender os truques mínimos necessários para
viver sem se entregar ao controle do caos. Se encaixar, sem ser só mais uma peça.
E prosperar, sem agir em detrimento da vida na cidade.
Que um dos cidadãos paulistanos que sabem viver assim cruze o meu caminho e me presenteie
com bons conselhos.
(uma foto e um texto)

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