quarta-feira, 6 de novembro de 2013

Tigres Asiáticos

[...] Mas grande parte do tempo foi usada para relembrar a história do remador de Singapura. Uma tarde, quando o Sol já estava baixando, avistamos um barco minúsculo à distância. Isso a mais de duzentos quilômetros da terra firme. Pensamos que poderiam ser pescadores à deriva. Apesar de não terem emitido qualquer sinal, paramos. O tempo estava bom e o capitão devia estar de muito bom humor naquele dia.

Na barca enviada para o resgate, fomos três. Eu, um australiano e um chinês de Hong Kong. Acho que o critério foi a diversidade, porque afinal não sabíamos ainda de onde eram os ocupantes do barco. Foi bem desagradável sair do balanço quase inexistente do nosso grande navio pra agitação da barquinha, que além disso estava meio suja. Em quinze minutos estávamos ao lado do pequeno barco, que descobrimos ser a remo, de onde acenava seu único ocupante. Um oriental que aparentava ter, no máximo, quarenta anos. Mas com eles é difícil saber.

O chinês tentou primeiro o mandarim, depois o cantonês. Nada. Finalmente tentamos o inglês, e, pro nosso alívio, ele nos entendeu e conseguimos um diálogo básico, sem muitas palavras perdidas. Após se identificar e dizer a sua origem, o remador agradeceu e recusou a nossa oferta de ajuda. Ele havia partido sozinho, nove dias antes, com o objetivo de chegar até Bali, na Indonésia. Ficamos impressionados com a audácia daquele senhor, nem tanto pela distância, mas sim porque o Mar de Java é uma área de tráfego intenso, com alguns conflitos e muitos bancos de corais difíceis de contornar sem auxílio. Além de tudo, ele não carregava nem rádio e nem GPS.

Convencidos de que o homem era senil, tentamos convencê-lo a desistir e voltar conosco para o nosso navio. Muito simpático, ele seguiu recusando ajuda e acrescentou que aquela era a "missão da vida dele". Disse que já havia se desfeito de tudo o que acumulara em Singapura. Nessa hora eu imaginei ele ganhando a vida por lá, primeiro humildemente, e depois com cada vez mais conforto, em sincronia com a ascensão dos Tigres Asiáticos. Ele contou que, com as economias, comprou o barco onde estava (um belo barco de madeira, pintado de branco e verde, que devia ter pouco menos de vinte pés), mantimentos para um mês, e ainda tinha um pouco de dinheiro para escolher um rumo quando chegasse.

Enquanto ele nos dizia essas coisas, já um tanto apressado, de olho no pôr-do-sol que começava, eu lembrei de você. Será que esse senhor, mesmo no outro lado do mundo, leu aquele livro do Amyr Klink que você me emprestou? Não dava mais tempo de perguntar, porque logo já estávamos nos afastando dele. O ronco do motor impediria a minha pergunta mesmo se eu gritasse.

Do convés observamos o barquinho sumir na escuridão. Ele tinha três pares de luzes. Verdes, vermelhas e azuis. Por causa delas eu comecei a imaginar o remador como um homem muito feliz, convicto do que busca na vida, mesmo que isso acabe o matando. Talvez ele tivesse uma história triste, ou quem sabe um desejo de morte. Ele se preocupou bem mais com a estética do que com a própria segurança nessa missão à qual ele se atribuiu. Vez por outra, desde aquele dia, eu penso nisso. Será que ele chegou?

Por favor, me diga se faz sentido pra você.


(a story on a ship)

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