Era
madrugada quando saí do teatro e fechei as portas. A praça estava em silêncio e
só se ouvia o respirar ocasional das árvores ao vento. Apressei-me para o
carro, o único estacionado nas redondezas.
Aquela era a cidade velha, muitas
construções eram seculares. Algumas, infelizmente, esquecidas e invisíveis aos
olhos modernos. Não todas, porém.
Ao lado do teatro, há um casarão
abandonado. Está caindo aos pedaços desde que me dou por gente, o que significa
décadas. Ninguém jamais foi visto entrando ou saindo; nem os mendigos
atravessam seus portões enferrujados, preferindo a cobertura das árvores. Até
mesmo os cães vira-latas evitam o terreno. Somente os gatos se aventuram sobre
as folhas secas do jardim.
Meu carro me esperava parado em frente
ao casarão. Caminhei rápido até ele.
Quando se trabalha em um lugar quase
tão antigo quanto a própria cidade, como é o caso do teatro, é difícil ignorar
histórias de fenômenos inexplicáveis devidamente passadas de geração a geração.
Com o tempo, todo mundo presencia algo
entre aquelas paredes, que guardam mais memórias do que famílias inteiras. Algo
que preferem não mencionar. Algo que desmerecem com um sorriso de desdém quando
um amigo junta coragem para compartilhar.
Ao chegar ao carro, ouvi um som
próximo. Não havia uma alma viva em todo o largo. Pensei ter sido um miado, mas
não conseguia achar um gato. Desativei o alarme do carro e ia entrar quando voltei
a ouvir o miado. Agucei os ouvidos e descobri que não era um gato.
Era um som de violino. Vinha do casarão
às escuras.
Os janelões tinham cortinas que
impediam a visão do interior. Tudo estava fechado como sempre estivera. A luz
do poste iluminava o jardim e só. Definitivamente, eu ouvia um violino a tocar.
Meus anos de teatro me disseram que
aquilo não era uma gravação, a dinâmica no som era de alguém tocando o
instrumento naquele momento. Havia alguém tocando violino no casarão. Eu sei o
que ouvi. E sei também que aquela melodia era tão bela quanto assustadora.
Arrepiei da cabeça aos pés… e o mais estranho aconteceu.
Não pude conter meus pés de me levarem
até as grades do muro do casarão. A música era hipnótica. Nunca ouvi algo
parecido. Ficava mais clara quanto mais eu a escutava, como se ressoasse em
toda a praça. Como se me dominasse por completo. Como se…
Então parou de repente e tive a
impressão de ter acordado. Eu continuava de pé próximo ao muro e a praça, vazia
e silenciosa.
Foi quando notei as luzes dentro do
casarão.
Domando o medo que corria nas minhas
veias e gritava para que eu voltasse para o carro e fosse embora, puxei meu
celular do bolso para registrar e comprovar aos céticos essa história que com
certeza contaria no dia seguinte. Por cima da grade, enquadrei a entrada do casarão e me esforcei
para não tremer.
Pela tela do celular, vi que a porta da
frente começou a se abrir lentamente. Congelei. Quando ela parou, meus olhos arregalados
viram uma silhueta alta recortada contra a luz. Ainda tirei uma foto antes de
correr para o carro e arrancar dali para casa o mais rápido possível.
Mal dormi nessa noite e só tive coragem
de olhar a foto no celular no dia seguinte, na segurança do dia. Desde então, parei
de estacionar próximo ao casarão.
Não sei por que não tenho vontade de
contar aos colegas do teatro sobre esse ocorrido. Quanto à foto… Bem, nunca
mais olhei para ela, mas vai continuar guardada no meu celular.
E nela não aparece silhueta alguma.
(uma foto e um texto)

Nenhum comentário:
Postar um comentário