domingo, 17 de novembro de 2013

O Velho Casarão

Era madrugada quando saí do teatro e fechei as portas. A praça estava em silêncio e só se ouvia o respirar ocasional das árvores ao vento. Apressei-me para o carro, o único estacionado nas redondezas.

Aquela era a cidade velha, muitas construções eram seculares. Algumas, infelizmente, esquecidas e invisíveis aos olhos modernos. Não todas, porém.

Ao lado do teatro, há um casarão abandonado. Está caindo aos pedaços desde que me dou por gente, o que significa décadas. Ninguém jamais foi visto entrando ou saindo; nem os mendigos atravessam seus portões enferrujados, preferindo a cobertura das árvores. Até mesmo os cães vira-latas evitam o terreno. Somente os gatos se aventuram sobre as folhas secas do jardim.

Meu carro me esperava parado em frente ao casarão. Caminhei rápido até ele.

Quando se trabalha em um lugar quase tão antigo quanto a própria cidade, como é o caso do teatro, é difícil ignorar histórias de fenômenos inexplicáveis devidamente passadas de geração a geração. Com o tempo, todo mundo presencia algo entre aquelas paredes, que guardam mais memórias do que famílias inteiras. Algo que preferem não mencionar. Algo que desmerecem com um sorriso de desdém quando um amigo junta coragem para compartilhar.

Ao chegar ao carro, ouvi um som próximo. Não havia uma alma viva em todo o largo. Pensei ter sido um miado, mas não conseguia achar um gato. Desativei o alarme do carro e ia entrar quando voltei a ouvir o miado. Agucei os ouvidos e descobri que não era um gato.

Era um som de violino. Vinha do casarão às escuras.

Os janelões tinham cortinas que impediam a visão do interior. Tudo estava fechado como sempre estivera. A luz do poste iluminava o jardim e só. Definitivamente, eu ouvia um violino a tocar.

Meus anos de teatro me disseram que aquilo não era uma gravação, a dinâmica no som era de alguém tocando o instrumento naquele momento. Havia alguém tocando violino no casarão. Eu sei o que ouvi. E sei também que aquela melodia era tão bela quanto assustadora. Arrepiei da cabeça aos pés… e o mais estranho aconteceu.

Não pude conter meus pés de me levarem até as grades do muro do casarão. A música era hipnótica. Nunca ouvi algo parecido. Ficava mais clara quanto mais eu a escutava, como se ressoasse em toda a praça. Como se me dominasse por completo. Como se…

Então parou de repente e tive a impressão de ter acordado. Eu continuava de pé próximo ao muro e a praça, vazia e silenciosa.

Foi quando notei as luzes dentro do casarão.

Domando o medo que corria nas minhas veias e gritava para que eu voltasse para o carro e fosse embora, puxei meu celular do bolso para registrar e comprovar aos céticos essa história que com certeza contaria no dia seguinte. Por cima da grade, enquadrei a entrada do casarão e me esforcei para não tremer.

Pela tela do celular, vi que a porta da frente começou a se abrir lentamente. Congelei. Quando ela parou, meus olhos arregalados viram uma silhueta alta recortada contra a luz. Ainda tirei uma foto antes de correr para o carro e arrancar dali para casa o mais rápido possível.

Mal dormi nessa noite e só tive coragem de olhar a foto no celular no dia seguinte, na segurança do dia. Desde então, parei de estacionar próximo ao casarão.

Não sei por que não tenho vontade de contar aos colegas do teatro sobre esse ocorrido. Quanto à foto… Bem, nunca mais olhei para ela, mas vai continuar guardada no meu celular.

E nela não aparece silhueta alguma.






(uma foto e um texto)

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